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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O meu nome chama-se Dor ...

O meu nome chama-se Dor ...

Há dias em que as notícias nos abatem , foi o que me aconteceu, logo após este acontecimento estava de costas, televisão aberta, e dou por mim a ouvir uma noticia ……. Uma mãe desesperada que entrou no Tejo com as filhas (19 meses, quatro anos) e ao regressar, regressava sozinha a gritar para um homem que se encontrava ou ía a passar e assistiu ( à Senhora a sair do carro com as filhas (…… ) e ao regressar meia “encharcada” ouviu aquele um grito; --- "Procure as minhas meninas elas ficaram lá…..a esta pessoa, vão concerteza ecoar durante longos anos aos ouvidos esta frase que foi quem deu o alarme …..
O acto de uma mãe que decida matar os filhos é, provavelmente, um dos mais contra-natura existentes, causa arrepios, agonia , causa, incompreensão, e uma panóplia de outras emoções negativas junto de quem está de fora e a mim causou-me tudo isto. Começo por imaginar uma “Maria mãe” a ir de mãos dadas com as filhas, as crianças aos saltos e felizes que vão passear com a mãe à noite …. e na cabeça da mãe o que será que iria ao ver as filhas aos saltinhos? nada e tudo de certo …. Não consigo acreditar que, ao olhar para as filhas neste “ambiente de boa disposição” que vá mesmo a pensar …. vou matá-las, vão morrer afogadas, vou deitá-las para o Tejo…..… ai não poupem-me !!!! estou toda arrepiada só de imaginar um cenário destes….. mas quase que jurava que assim foi se não foi desta maneira foi de outra muito parecida !!!!
E agora vem pergunta crucial; mas o que levará uma mulher a ser capaz de cometer tal crime contra frutos do seu próprio ventre? esta rapariga devia de andar num sofrimento brutal, perturbações mentais graves não tratadas, concerteza ou então, mera vingança, conflitos de poder paternal, problemas económicos ( que eram do conhecimento geral ) e impulsivamente pensa é agora e de repente sai de casa, blá, blá, bla e vai sempre a matutar pelo caminho “se não são minhas não são de mais ninguém” . “se não são minhas não são de mais ninguém” e dá-se assim o impensável o desfecho….. será assim, não será? Eu não nada sei, não percebo nada destes assunto do foro da psiquiatria só seio o que leio-o e o que a vida me tem dado assistir, mas sou atenta e sei tirar algumas ilações mas se calhar mal. Mas pronto tenho opinião, deste caso, que desde já digo que mexeu muito comigo, e penso nisto muitas vezes ….
Segundo palavras do um “ex-inspector da Polícia Judiciária, no dia a seguir sublinha que, alguns casos de matricídio que têm ocorrido nos últimos anos prendem-se com conflitos na regulação do poder paternal. “São problemas que precisam de ser tratados não numa óptica de se ganhar os filhos a todo o custo, mas numa perspectiva humana e que possa salvaguardar o interesse das crianças e o equilíbrio dos pais”,
Ao mesmo tempo, a vingança dirigida aos companheiros por parte de mulheres que “não são mães, são progenitoras”, e que “não estabelecem relações afectivas com os filhos”, poderá, no entender deste mesmo Senhor, justificar casos como este (…)

Eu como não sei nada de nada de psiquiatria como já referi, e só posso fazer perguntas, porque sou curiosa e gosto de saber para ver se consigo perceber, o qual desde já penso que mesmo para quem o sabe e exerce o cargo,também deve ter muito “ses” e “ pode ser que” ….. Estas patologias dissociativas ( penso que se chamam assim) desculpem-me os profissionais da área se estou a dizer alguma asneira ) fazem pensar, e acreditar que a morte é a única solução, foi o caso, para ela, possivelmente seria a única solução para salvar as filhas E, porquê? porque não via nenhuma luz ao fundo do túnel para a resolução do seu problema/s, e assim pensaram muitas mais cabeças “disfuncionais”, que já não existem alternativas para os seus problemas ou outras soluções senão pôr termo à vida ou às vidas. Será assim?
Só podem ser transtornos de personalidade muito agressivos ou perturbações psiquiátricas muito fortes no meu entender, porque para se cometer um acto desta natureza a pessoa está, em princípio, muito doente, e deve sofrer de uma anomalia psíquica muito grave, e alem disso também deve padecer de uma depressão profunda. Não terei razão ?
Conheci alguém, que por acaso até já foi referida aqui por mim uma pessoa mediática que tinha uns transtornos de personalidade e perturbações psiquiátricas enormes, há muito tempo, e que lhe davam uma enorme frieza afectiva que me fazia impressão, onde havia uma rede social e familiar também muito má, ela tinha uma grande baixa de auto-estima, tudo isto a levou a um grande isolamento e de repente a impulsividade fê-la pôr termo à vida. Este final da pessoa que conheci foi do género desta jovem tudo .era do conhecimento geral ( este caso que acabei de relatar a depressão à qual eu sempre achei e referi à própria e à família, várias vezes ) todo o mundo que a rodeava sabia desta situação, só que ela ria e brincava de vez enquanto !!!!! ( ambas estavam referenciadas), uma por violência doméstica e não só e esta minha conhecida, era simplesmente por atitudes de isolamento, solidão etc…. Desde as autoridades à família, assistentes sociais, mas ninguém fez nada!!! e depois acontece coisas estranhas ? ou nem por isso?
Voltando à jovem mãe, tinha de haver um mundo de dor dentro daquela pessoa, deprimida e vítima de violência doméstica, mas a dor que ficou e que vai ficar para toda a vida é ainda maior.
Segundo ouvi um comentador da TV, chamar-lhe "Suicídio piedoso", mas o que é isso de suicídio piedoso? No meu ver piedade não é sinónimo de desespero, e ali o que se passou foi um acto de desespero brutal que levou uma mãe a ir matar as filhas, porque o total de esperança na vida dela era 0 e só assim se pode aceitar se é que se pode aceitar tal acto dantesco de uma cabeça desvairada, com uma insanidade mental a 100%.

“ Salve as minhas meninas”…….

Quando tenho conhecimento de casos destes, que infelizmente cada vez existem mais e mais, de pais que matam os filhos, vem-me sempre à cabeça um poema de Guerra Junqueiro, que quando o li pela primeira vez e já foi à bué de anos tenho sempre presente, até quando vejo os meus melros por aqui avoaçar penso logo nele….que se chama ‘O Melro’, no qual o poeta descreve a situação real de um melro que matou os filhos quando estes se encontram em cativeiro, levando-lhes no bico bagas venenosas. E escrevia o poeta "Meus filhos, a existência é boa / Só quando é livre. A liberdade é a lei, / Prende-se a asa mas a alma voa / Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!"(…)

( Tive que ir em buscas à net, porque só me lembrava de 2 ou 3 frases e mal , e agora sei que foi escrito no fim do século XIX princípios do século XX, informação net. Este poema é brutalmente grande e só partilho um bocado e mesmo assim é grande… )

( …) Andando no quintal um certo dia
Lendo em voz alta o _Velho Testamento_
Enxergou por acaso (que alegria!
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros escondido
Entre uma carvalheira.
E ao vel-os exclamou enfurecido:

«A mãe comeu o fructo prohibido;
Esse fructo era a minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmittiu-se o peccado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Egreja. Estou vingado!»

E engaiolando os pobres passaritos
Soltava exclamações:
«É uma praga. Maldictos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios os partam! andae lá que emfim...»

E deixando a gaiola pendurada
Continuou a ler o seu latim
Fungando uma pitada.

* * * * *

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a naturesa
Uma serena paz religiosa,
Uma bella tristesa
Harmonica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um mysticismo heroico e salutar.
As arvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longiquos, solitarios,
Tinham tomado as fórmas rendilhadas
Das plantas dos herbarios.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginaes as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as creanças.
Ia subindo a escada o velho abbade;
A sua negra, athletica figura
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nodoa escura.
E introduzindo a chave no portal
Murmurou entre dentes:

«Tal e qual... tal e qual!...
Guisados com arroz são excellentes.»

* * * * *

Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, avelludado
Do sorriso dos martyres, dos justos.
Um effluvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da materia
Murmuravam dialogos gigantes
Pela amplidão etherea.
São precisos silencios virginaes,
Disposições sympathicas, nervosas,
Para ouvir estas fallas silenciosas
Dos mudos vegetaes.
As orvalhadas, frescas espessuras
Presentiam-se quasi a germinar.
Desmaiavam-se as candidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.

E n'isto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas pennugens doces como arminho,
Um feltrosito assetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:

«Foi aquelle homem negro.--Quando veio
Chamei, chamei... Andavas tu na horta...
Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!...
Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua aza!
Olha, já vão florindo as assucenas;
Vamos a construir a nossa casa
N'um bonito logar...
Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas
Para vôar, vôar!»

E o melro hallucinado
Clamou:

«Senhor! Senhor!
É por ventura crime ou é peccado
Que eu tenha muito amor
A estes innocentes?!
Ó natureza, ó Deos, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida!
Filhos do coração!!...
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o ceo para voardes,
E prendem-vos assim d'esta maneira!...
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o aguilhão, a fé que nos abraza...
Encarcerar a aza
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! quasi á noitinha
Parti, deixei-os sós...
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguem!... Que atroz!
E eu devia sabel-o!
Eu tinha obrigação de adevinhar...
Remorso eterno! eterno pesadello!...
O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -


(…)

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