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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Tratarmo-nos uns aos outros por doutor é tão oco como bacoco. Chega deste envergar de patentes académicas que não correspondem nem a valor intelectual nem a coisa alguma. É pindérico, é patético e, senhores doutores e senhoras doutoras, é muito parolo.

Como ficámos todos doutores



Acho que por esta altura já toda a gente reparou que em Portugal, como no resto do mundo desenvolvido, já há muito
que não é privilégio raro alguém concluir quer uma licenciatura quer um mestrado, graus equivalentes
ao bacharelato e à licenciatura pré-reforma de Bolonha, respectivamente.
Por não ser privilégio, mas mesmo que fosse, é com renovado vigor que a cada ano que passa aumenta o número
 de pessoas esclarecidas que desprezam esses licenciados e mestrados que se apreciam pelos seus graus, 
muito particularmente àqueles que se fazem tratar pelo título de doutor.
Compreende-se que em meados do século XX, num Portugal pobre e iletrado, mais o contexto
duma ditadura que promovia o culto da hierarquia, quem alcançasse uma mera instrução de ensino superior
 quisesse tomar para si um título que o engrandecesse entre os demais.
Enganando quem não a tinha alcançado, esses licenciados na cidade voltavam às origens rurais
com uma licenciatura e a convicção de merecerem um tratamento deferencial com um título que não era seu:
«‘Senhor’, não: ‘senhor doutor’!»,
exigiam esses simplórios das pessoas simples.
E as tais pessoas simples impressionavam-se, não com a conquista do mais alto nível académico
possível, mas pela forma autoritária que o seu detentor a bradava como sinal de poder e direito ao respeito. 
Se ao menos soubessem que o respeito vem do mérito, e não do estatuto.
Acontece que tal cretinice nunca nos passou de moda cá em Portugal, nem após o 25 de Abril de 1974. Pelo contrário, 
parece ter-se estendido com a crescente afluência de pessoas ao ensino superior que usurpavam agora para si também
 aquele título.
Mas ao mesmo tempo, quando com o fim da ditadura e a abertura à mobilidade transfronteiriça muita gente começou 
a tomar contacto com os reais costumes de trato formal académico de outros países desenvolvidos, começou a tornar-se 
conhecido o facto do «doutor» servir só para se referir a médicos e detentores de doutoramentos. Só que como toda 
esta fraude é para consumo doméstico, os licenciados e mestrados têm conseguido manter o título mesmo nos nossos dias.
A criatividade do impostor
Então surge uma explicação defensiva que seria hilariante se não fosse dita como se fosse muito a sério: que os licenciados
 podem usar abreviação «Dr.» e que os doutorados, esses sim, até têm direito ao «Doutor» escrito por extenso.
Uma patetice terceiro mundista que inventámos para manter o costume do trato oral do doutor, que é o que interessa 
aos que a defendem, já que pouca correspondência escrita hão-de receber esses insignificantes.
A abreviação tem o mesmo significado que a palavra que abrevia, ou cabe na cabeça de alguém um «Sr.» ser menos
 que um «Senhor»?
Até o próprio desconhecer do valor duma abreviação é sintomático da ignorância e fé no estatuto dessa gentinha
que lhe crê diferenças de significado.
Claro que a esta discussão poderemos trazer a própria necessidade dos títulos. Vejo como expressão de parolice 
professores universitários tratarem-se mutuamente em presença dos alunos com uns tristes «o professor doutor 
Tal isto» e «o professor doutor Tal e Tal aquilo». E por todo o lado por este país, 
colegas de trabalho — colegas! — tratam-se por doutor. Extraordinária mediocridade.
O resultado ao que isto chegou é termos desde arrumadores de carros a tratarem por doutor e doutora toda e qualquer 
pessoa que lhes possa dar uma moeda, até aos mais altos arrumos da nossa sociedade, onde os dizeres de pompa
 e subserviência são a moeda corrente.

Please, call me Steve

Concluir um doutoramento, até isso, não é grande conquista intelectual nem sinal de grandeza nenhuma de espírito. 
Um doutorado em qualquer país de tradição mais igualitária, onde as pessoas se fazem valer pelo seu mérito pessoal, 
rapidamente dispensa aos seus colegas o tratamento formal.
Só uma pequenez intelectual precisa de ser revestida de todo o aparato hierárquico que lhe seja possível. 
Em sociedades democráticas e igualitárias, onde as ideias e posições intelectuais valem pela qualidade da sua
sustentação, o apelo à magistralidade da pessoa é uma falácia e um grande sinal do seu contrário.
Quando um estrangeiro cá chega impressiona-se primeiro com a quantidade de doutoramentos que por cá há, 
achando-nos um povo muito dotado academicamente. Mas logo cai a impressão por terra quando descobre, 
como quem sente ter descoberto uma fraude, que afinal é tudo uma fantasia terceiro-mundista.
Ao menos que a pretexto da reforma de Bolonha se eduquem as pessoas para o uso correcto do termo «doutor». 
Digamos-lhes que é para harmonizar com as convenções da civilização.
Os doutores sem doutoramento deste país são assim, no panorama internacional, como aqueles que usam 
roupas e acessórios de marcas contrafeitas. Se por cá até um doutoramento se pode fazer como quem realiza 
um mais um trabalhinho, meramente mais longo, de ensino superior — tira ideias daqui, tira dali, 
junta-lhe eventualmente um estudo empírico, e embrulha-o numa redacção pobre de escrita e de espírito por
 quem não está habituado a ler — não se tirando daí grande mérito, tornam-se os falsos doutores então uma 
coisa ainda mais ridícula.
Tirar um doutoramento, em Portugal, é para alguns uma forma de adiar o desemprego, obtendo uma bolsa da FCT 
como forma de subsídio de desemprego, tornando-se no fim, os mais medíocres, professores doutores.
Os doutores da treta fazem deste país uma terra de académicos e intelectuais contrafeitos. Noutras áreas, há 
aparentemente ainda outros títulos usurpados em Portugal, como os engenheiros-técnicos se apropriam do título de 
engenheiro. Não é só tudo falso, como é por cá o mau uso generalizado dos títulos uma fraude socialmente aceite.
O mau gosto é tão mau, que não são raros os que até pedem ao banco que gravem o seu nome com o título 
académico — no seu cartão de débito.
Desconfio que muitos doutores (Drs.?) portugueses se sentiriam nus se se permitissem deixar que o tratassem 
por senhor, por senhora, ou simplesmente pelo seu nome. Só que neste país onde já não há mais quem não
 saiba, realmente, que a quem conclua um doutoramento é que lhe é conferido o título de doutor, parece-me que
insistirmos todos neste teatro é vivermos um conto nacional cheio de reis que vão nus, todos vestidos de 
doutorice num tecido intelectual inexistente. Nem livros lêem, estes doutores.
Tratarmo-nos uns aos outros por doutor é tão oco como bacoco. Chega deste envergar de patentes
académicas que não correspondem nem a valor intelectual nem a coisa alguma. É pindérico, 
é patético e, senhores doutores e senhoras doutoras, é muito parolo.
A cada dia que passa, há mais gente a saber que ser doutor é ser parolo.

Não seja um.


RC Pinho - escritor da Internet

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