Um dos melhores fadistas do presente, senão o melhor ........
Este blogue não é de leitura obrigatória mas, traduz-se por abrir janelas e deixar entrar sem nenhum medo outros olhares ... aqui, será o encontro com aqueles que tal como eu, apreciam as palavras, as letras a natureza, o sol a poesia e o amor. ......Todos nós somos feitos de pedaços, pedaços de gente, pedaços de terras por onde passamos, pedaços de cultura, de arte, de música, de vivências, de amor ou tristeza, cabendo a cada um saber tirar partido do melhor pedaço que há em si.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
sábado, 29 de outubro de 2011
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
" Ai que me enganas-te e o engano pouco foi" ....

Por vezes andamos enganados durante uma vida inteira ...
Temos impressões erradas, temos medo de abrir os olhos e acreditar no que nosso coração evidencia como o correcto e o que devemos fazer.
Gostamos de maneira errada, por vezes até deixamos de gostar de nós, para dar valor aos outros, e até perdemos capacidades de distinguir as coisas …
Estou sempre em estado de observação e venho tendo certezas tristes, mas que de certa forma me levarão a melhores lugares a acompanhada também de melhores pessoas.
Lidar com pessoas egoístas é em grande parte do tempo uma perda de tempo.
É um desgaste infernal, onde não existem vencedores, todos perdemos principalmente tempo e saúde emocional.
Para quê arriscar o que é óbvio? Não sei, mas arriscar é uma maneira de aprender, crescer e acabar por aprender que ainda há gente que vale à pena ter a sua atenção, e a sua amizade.
Relacionar-se com seres “ com manias” encaminham-nos para um certo abismo, o abismo da descrença e da falta de fé, em si mesmo.
Ser simpático e amável é um gesto que deve ser acompanhado com a falta da pretensão da troca, gostar é gostar e ponto final.
Mas ajudar e colocar-se sempre em segundo lugar não é coerente também, não é saudável para ninguem ser tapete dos outros.
Relações autodestrutivas geram doenças “emocionais” e físicas, são venenos para a nossa corrente sanguínea. Perder a jovialidade, o brilho cintilante dos olhos, a energia vital, porque o outro não percebe? Porque não se importa integralmente com os seus obstáculos?
O ideal é acordar p’ra vida, para a sua morte interior e saber dizer basta em relacionamentos confusos.
Cuidar-se significa também aproximar-se de gente que te vê como gente. Relações amorosas, seja qual for a ligação que se tenha com o outro: familiar, amigável ou romântica, só deve permanecer na vida, se houver respeito, companheirismo, dedicação, caso contrário, passe para o plano B, aquele que deveria ser o A, o foco na sua felicidade e bem estar.
Anime-se, divirta-se, pule, porque ninguém melhor que você para dar o primeiro passo para tal.
Temos impressões erradas, temos medo de abrir os olhos e acreditar no que nosso coração evidencia como o correcto e o que devemos fazer.
Gostamos de maneira errada, por vezes até deixamos de gostar de nós, para dar valor aos outros, e até perdemos capacidades de distinguir as coisas …
Estou sempre em estado de observação e venho tendo certezas tristes, mas que de certa forma me levarão a melhores lugares a acompanhada também de melhores pessoas.
Lidar com pessoas egoístas é em grande parte do tempo uma perda de tempo.
É um desgaste infernal, onde não existem vencedores, todos perdemos principalmente tempo e saúde emocional.
Para quê arriscar o que é óbvio? Não sei, mas arriscar é uma maneira de aprender, crescer e acabar por aprender que ainda há gente que vale à pena ter a sua atenção, e a sua amizade.
Relacionar-se com seres “ com manias” encaminham-nos para um certo abismo, o abismo da descrença e da falta de fé, em si mesmo.
Ser simpático e amável é um gesto que deve ser acompanhado com a falta da pretensão da troca, gostar é gostar e ponto final.
Mas ajudar e colocar-se sempre em segundo lugar não é coerente também, não é saudável para ninguem ser tapete dos outros.
Relações autodestrutivas geram doenças “emocionais” e físicas, são venenos para a nossa corrente sanguínea. Perder a jovialidade, o brilho cintilante dos olhos, a energia vital, porque o outro não percebe? Porque não se importa integralmente com os seus obstáculos?
O ideal é acordar p’ra vida, para a sua morte interior e saber dizer basta em relacionamentos confusos.
Cuidar-se significa também aproximar-se de gente que te vê como gente. Relações amorosas, seja qual for a ligação que se tenha com o outro: familiar, amigável ou romântica, só deve permanecer na vida, se houver respeito, companheirismo, dedicação, caso contrário, passe para o plano B, aquele que deveria ser o A, o foco na sua felicidade e bem estar.
Anime-se, divirta-se, pule, porque ninguém melhor que você para dar o primeiro passo para tal.
Este pequeno texto explica:
“Eu já começara a adivinhar que ele me escolhera para eu sofrer; às vezes adivinho: mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.” Clarice Lispector
domingo, 23 de outubro de 2011
Guerra Junqueiro

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos
de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de
dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz
de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo,
enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da
sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, -
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem
carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam
na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a
veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao
roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a
indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis
no Limoeiro (...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este
criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo
primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao
ponto de fazer dela saca-rolhas;
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e
pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao
outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo,
apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não
caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
sábado, 22 de outubro de 2011
Como funciona o cérebro humano ...

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos.
Se alguém o colocar dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, a sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reacções internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objectos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.
Compreendido este ponto, há outra coisa que tem que considerar:
Nosso cérebro é extremamente optimizado, ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia, o qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade.
Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizado e não aparece no índice de eventos do dia portanto, quando se vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo!!!
É quando se sente mais vivo!!!!!.
Conforme a mesma experiência se vai repetindo, ele vai simplesmente colocando as suas reacções no modo automático 'apagando' as experiências duplicadas.
Se entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais e as Páscoas chegam cada vez mais rapidamente. É como quando começamos a conduzir , tudo parece muito complicado, e a nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.
Mas, um dia ao conduzir-mos já trocamos as mudanças, olhamos os semáforos, lemos os sinais ou até comemos e falamos ao telemóvel ao mesmo tempo. ( mal !!! )
Como acontece isto?
Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas ( nós não lê-mos com os olhos, mas com a imagem anterior, que fica na mente); O cérebro já sabe qual é a mudança a trocar , (ele simplesmente pega as suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência).
Ou seja, não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a sua mente. Aqueles críticos segundos da mudança ( automóvel ), leitura de placas são apagados de sua noção de passagem do tempo…. Quando começa a repetir algo exactamente igual, a mente apaga a experiência repetida.
Conforme envelhecemos as coisas começam-se repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, ... enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido comprido e cheio de novidades), vão diminuindo.
Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidades na semana, no ano ou, para algumas pessoas, até na década.
Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... ROTINA !!!!
A rotina é essencial para a vida e optimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas gosta tanto da rotina que, ao longo da vida, o seu “diário” acaba sendo um livro com um só capítulo, repetido todos os anos……
Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo:
M & M (Mude e Marque).
Mude, fazendo algo diferente e Marque, fazendo um novo ritual, uma festa ou qualquer coisa de diferente.
Entre na universidade com 60 anos, comece coisas novas e diferentes, troque a cor do cabelo, vá ao cabeleireiro, deixe a barba crescer, tire a barba, compre enfeites, colares ou brincos. pinte-se, arranje-se, vá a shows, cozinhe uma receita nova..
Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes…
Seja diferente.
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo.
E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, o seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos. Telefone só para dizer olá, almoce, ou jante com eles nem que seja uma vez no mês…
Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. A troca de ideias é realmente muito saudável.
Enfim, acho que já entendeu o recado.
Boa sorte com suas novas experiências para expandir o seu tempo, com Qualidade, Emoção, e se necessário, rituais diferentes de Vida.
ESCREVA em tAmaNhosdiFeRenTes e em CorES difErEntEs !
CRIE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVENTE...
VIVA, VIVA, VIVA !!!!!!!!
Nota: Esta foi a “mensagem” ( ao longo destes últimos anos ) que me foi transmitida pela minha amiga e prof.ª. Romaria Passos, pintora e psicóloga, ( senhora de múltiplas facetas ) e ao mesmo tempo bastante conhecedora de assuntos ligados aos comportamentos sociais e humanos e outros..
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
A Denuncia do Amor ....
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana .
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e
souberam entender-se sem palavras inúteis .
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado .
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo .
Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade .
A rádio já falou A tv anuncia
iminente a captura . A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde .
Antes que o exemplo frutifique .
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia .
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos .
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o .
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade .
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas .
Sobretudo protejam as crianças da contaminação .
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram .
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos .
Ainda bem que se revelou a tempo .Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros . É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
/
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas .
Foi condenado à morte é evidente .É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
/
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
*
Daniel Filipe _ A invenção do Amor _
Mel Odon
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana .
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e
souberam entender-se sem palavras inúteis .
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado .
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo .
Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade .
A rádio já falou A tv anuncia
iminente a captura . A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde .
Antes que o exemplo frutifique .
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia .
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos .
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o .
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade .
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas .
Sobretudo protejam as crianças da contaminação .
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram .
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos .
Ainda bem que se revelou a tempo .Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros . É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
/
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas .
Foi condenado à morte é evidente .É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
/
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
*
Daniel Filipe _ A invenção do Amor _
Mel Odon
sábado, 15 de outubro de 2011
O sol de Outono ...
Tenho alturas que quase me apetece apagar o sol por uns momentos, (eu que sou a mulher do sol ), e a este estado social inquietante e horroroso a que estamos a assistir tambem ( que ainda agora começou )…. Temos este calor fora do calendário a dar-nos uma impressão que fomos de férias na época errada parecendo que tudo o resto está fora de tempo e não é nosso. A crise, a política, os cortes dos subsídios, o orçamento, o IVA, os buracos, as notícias... Tudo isto me cansa, satura, e é tudo tão negativo. Até o sol! É como se o diabo estivesse a cozinhar debaixo da terra, por cima da Terra e de todos as bandas uma ementa que inflama e nos está a pouco e pouco a definhar. Eu já me sinto levemente cansada e já peço um pouco de frio ou nuvens verdadeiras que acalmem este calor e me traga o ciclo natural das nossas 4 estações. Já muitos sentem impaciência e austeridade tendo a noção da realidade e, não há sol nem tempos estranhos que os iludam. Contudo, existem pessoas que ainda se deleitam com este Outono tórrido, fantasiando que ainda escorre algum mel nas suas vidas. …. Pessimista? Nada disso …quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Das voltas da vida de que é que nos recordamos mais?! Como se processa o encontro com a recordação?! Acho que deve ser através da associação de ideias. Os factos permanecem no nosso subconsciente e vêm à superfície sempre que um outro facto(presente) faz soar a campaínha da recordação... Será assim?!
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Sintra .....



Três lindas fotografias tiradas há uns meses em Sintra ...
Penso ser qualquer coisa de metaforico, não acredito que Fernando Pessoa tenha tido carta de condução, muito menos conduzisse um Chevrolet,(seria o seu sonho?) Álvaro de Campo esse sim, talvez "tivesse carta de condução" e Sintra, não seria o seu interior, sempre em conflito?
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim e comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás ficou o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez a criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima....
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
Álvaro de Campos
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
O Estigma e a doença mental .... ..
BoshVolto com o mesmo tema, infelizmente sempre actual passado um ano, e como nada mudou, continuarei nesta luta "até que a voz me doa" .....
A doença mental - e o estigma ...
Hoje , amanhã, depois de amanhã ....
Hoje, 10 de Outubro - Dia Mundial da Saúde Mental. A doença mental é um problema que existe a cada passo, e segundo a estatística, mais de 50% da população, sofre de destúrbios psicológicos, a nossa sociedade não aceita esta verdade,e nós ( individualmente) conscientes do problema, também nos custa a aceitar e muitas das vezes até pensamos que a nós nunca nos acontece ... pois não, que ideia? ...
Deixo este texto, que foi retirado inteiramente de um blogue que casualmente encontrei, acheio-o muito bem escrito, e muito elucidaditvo, como ando para escrever sobre este assunto há imenso tempo, resolvi "roubar" com a melhor das intenções . Com as minhas desculpas ao autor pelo abuso, mas, ao mesmo tempo um obrigado por ter abordado este tema, tão dificil de banir da nossas sociedade que é "O estigma" ...
"No romance Na Praia de Chesil (Ian Mcewan), há um garoto cuja mãe tem comportamentos estranhos, diferentes dos das outras mulheres. Ele tem a percepção de que mãe é diferente mas aprende a lidar com essa diferença. E cria um cenário de normalidade na sua relação com ela. É diferente mas, no fundo, todas as pessoas são diferentes. A mãe é a mãe, as outras mães são as outras mães.Um dia, tendo ele já 14 anos, o pai tem uma conversa com ele. É então que a criança, pela primeira vez, ouve a expressão "perturbações mentais" associada à mãe. Ficou chocado mas, no fundo, diz o narrador, na cabeça dele teria apenas que persuadir-se do que sempre soubera. Ou seja, do que ele já sabia sem saber. "Claro que sempre soubera. Fora mantido num estado de inocência em virtude da ausência de um termo para designar a doença da mãe. Nunca pensara nela como uma doente e, ao mesmo tempo, sempre aceitara que ela era diferente. Devido a essa simples expressão e à capacidade das palavras de tornarem visível o invisível, a contradição estava resolvida. Perturbações mentais. O termo dissolvia a intimidade, media friamente a mãe com um padrão público que toda a gente podia entender".A minha dúvida é a seguinte. Estará correcto o narrador quando diz, a respeito deste caso, que as palavras têm a capacidade de tornarem visível o invisível?Eu tive um tio esquizofrénico. Quando eu era garoto o meu tio, para mim, era apenas um tipo excêntrico. Dava com ele a falar sozinho, ficava envolvido em estranhos silêncios, escrevia poemas que me dava a ler e dos quais eu nada entendia, e tinha um violino. Passava o tempo livre a ler, sabia coisas que pouca gente sabia. Mas gostava de jogar comigo ao 21 e levava-me a passear. Sentia que gostava muito de mim e, mais tarde, era eu já adulto, percebi melhor que gostava mesmo com aquela sublime afectividade com que um cão gosta do seu dono.E foi já tarde que descobri que, afinal, a excentricidade poética e comportamental do meu tio eram devidas a uma doença chamada esquizofrenia. Que tinha começado a ficar assim quando, jovem, tinha ido estudar Direito para Lisboa e começara a ouvir vozes e a desenvolver uma mania da perseguição. Ou seja, acabara de descobrir um tio com problemas psiquiátricos.Agora, será que possuir uma palavra (ou um conceito) para caracterizar uma pessoa, ajuda a ver melhor a pessoa? Não falo da doença da pessoa mas simplesmente da pessoa. Num certo sentido sim. Um esquizofrénico é um esquizofrénico, um português é um português, um sueco é um sueco, um judeu é um judeu, um árabe é um árabe, um agente de uma companhia de seguros é um agente de uma companhia de seguros. E daí? O que nos dá isso a ver a respeito dessa pessoa? Até que ponto o nome, a etiqueta, a chapa mental que identifica a pessoa através de um conceito ajuda a vê-la melhor? Até que pontos os ínfimos átomos dispersos de que a pessoa é feita não são ofuscados pela granítica rigidez do conceito?Até que ponto a criança que não tem consciência de que a mãe sofre de "perturbações mentais" não a verá melhor do que a senhora da padaria ou o homem do talho que olham para ela como pessoa com "pertubarções mentais"? Um olhar mais limpo, mais isento, mais objectivo, mais despido de convencionalismos sociais tantas vezes artificiais e ocos?""
Texto retirado do blogue "Ponteiros Parados" - José Ricardo Costa
A doença mental - e o estigma ...
Hoje , amanhã, depois de amanhã ....
Hoje, 10 de Outubro - Dia Mundial da Saúde Mental. A doença mental é um problema que existe a cada passo, e segundo a estatística, mais de 50% da população, sofre de destúrbios psicológicos, a nossa sociedade não aceita esta verdade,e nós ( individualmente) conscientes do problema, também nos custa a aceitar e muitas das vezes até pensamos que a nós nunca nos acontece ... pois não, que ideia? ...
Deixo este texto, que foi retirado inteiramente de um blogue que casualmente encontrei, acheio-o muito bem escrito, e muito elucidaditvo, como ando para escrever sobre este assunto há imenso tempo, resolvi "roubar" com a melhor das intenções . Com as minhas desculpas ao autor pelo abuso, mas, ao mesmo tempo um obrigado por ter abordado este tema, tão dificil de banir da nossas sociedade que é "O estigma" ...
"No romance Na Praia de Chesil (Ian Mcewan), há um garoto cuja mãe tem comportamentos estranhos, diferentes dos das outras mulheres. Ele tem a percepção de que mãe é diferente mas aprende a lidar com essa diferença. E cria um cenário de normalidade na sua relação com ela. É diferente mas, no fundo, todas as pessoas são diferentes. A mãe é a mãe, as outras mães são as outras mães.Um dia, tendo ele já 14 anos, o pai tem uma conversa com ele. É então que a criança, pela primeira vez, ouve a expressão "perturbações mentais" associada à mãe. Ficou chocado mas, no fundo, diz o narrador, na cabeça dele teria apenas que persuadir-se do que sempre soubera. Ou seja, do que ele já sabia sem saber. "Claro que sempre soubera. Fora mantido num estado de inocência em virtude da ausência de um termo para designar a doença da mãe. Nunca pensara nela como uma doente e, ao mesmo tempo, sempre aceitara que ela era diferente. Devido a essa simples expressão e à capacidade das palavras de tornarem visível o invisível, a contradição estava resolvida. Perturbações mentais. O termo dissolvia a intimidade, media friamente a mãe com um padrão público que toda a gente podia entender".A minha dúvida é a seguinte. Estará correcto o narrador quando diz, a respeito deste caso, que as palavras têm a capacidade de tornarem visível o invisível?Eu tive um tio esquizofrénico. Quando eu era garoto o meu tio, para mim, era apenas um tipo excêntrico. Dava com ele a falar sozinho, ficava envolvido em estranhos silêncios, escrevia poemas que me dava a ler e dos quais eu nada entendia, e tinha um violino. Passava o tempo livre a ler, sabia coisas que pouca gente sabia. Mas gostava de jogar comigo ao 21 e levava-me a passear. Sentia que gostava muito de mim e, mais tarde, era eu já adulto, percebi melhor que gostava mesmo com aquela sublime afectividade com que um cão gosta do seu dono.E foi já tarde que descobri que, afinal, a excentricidade poética e comportamental do meu tio eram devidas a uma doença chamada esquizofrenia. Que tinha começado a ficar assim quando, jovem, tinha ido estudar Direito para Lisboa e começara a ouvir vozes e a desenvolver uma mania da perseguição. Ou seja, acabara de descobrir um tio com problemas psiquiátricos.Agora, será que possuir uma palavra (ou um conceito) para caracterizar uma pessoa, ajuda a ver melhor a pessoa? Não falo da doença da pessoa mas simplesmente da pessoa. Num certo sentido sim. Um esquizofrénico é um esquizofrénico, um português é um português, um sueco é um sueco, um judeu é um judeu, um árabe é um árabe, um agente de uma companhia de seguros é um agente de uma companhia de seguros. E daí? O que nos dá isso a ver a respeito dessa pessoa? Até que ponto o nome, a etiqueta, a chapa mental que identifica a pessoa através de um conceito ajuda a vê-la melhor? Até que pontos os ínfimos átomos dispersos de que a pessoa é feita não são ofuscados pela granítica rigidez do conceito?Até que ponto a criança que não tem consciência de que a mãe sofre de "perturbações mentais" não a verá melhor do que a senhora da padaria ou o homem do talho que olham para ela como pessoa com "pertubarções mentais"? Um olhar mais limpo, mais isento, mais objectivo, mais despido de convencionalismos sociais tantas vezes artificiais e ocos?""
Texto retirado do blogue "Ponteiros Parados" - José Ricardo Costa
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
António Gedeão ...

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
Aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
Não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
Essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
Se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
António Gedeão
sábado, 1 de outubro de 2011

Todos por Um ...
Fotografia de DDi'arte - Olhares
As notas para um diário....
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
As notas para um diário....
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 2000
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