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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Antonio Aleixo ( para ler e interiorizar .... )


Gentileza do pintor Luís Furtado, por acasião do 13º aniversário da Fundação António Aleixo 
O poeta António Aleixo, cauteleiro e guardador de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de Loulé, é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia.
 
Hoje apetece-me António Aleixo, o homem que transborda sabedoria de uma maneira tão singela e verdadeira e sempre actual. Alem das quadras que aqui vão ficar , tirei da net um texto que gostei imenso e vou partilhar para nunca nos esquecermos desta personagem magnifica e muito desvalorizada por quem de direito. E ao mesmo tempo também para quem o desconhece por esse mundo fora.

Este é o texto

Embora não totalmente analfabeto – sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros – não é capaz, porem, de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto.
Todavia, há nos versos que constituem este livro uma correcção de linguagem e, sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixam de impressionar.
Além disso, o tom sentencioso da maior parte das quadras que se reuniram e o facto de serem produto de uma espontaneidade, quase inacreditável para quem não conheça pessoalmente o poeta, justificam suficientemente a tentativa de dar a conhecer e de registar, em livro, uma inspiração raríssima, que seria injusto não divulgar.
António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes cantando numa feira ou festa de aldeia, outras a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionando por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente. De todas as maneiras, passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria – sua mais habitual ocupação – ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou sextilha a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
Os motivos e temas de inspiração são bastante variados. Note-se, porém, que não fere, com a habitual pieguice sentimental lusitana, a nota amorosa. E isto é bastante singular; uma ou outra pequena composição com esse carácter lírico foi quase sempre, de certeza, de inspiração alheia ou a pedido de qualquer moço amigo.
O que caracteriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens. E, no fundo, muito embora não seja um revoltado, é a chaga aberta de um sofrimento íntimo, provocado por certas injustiças, a fonte dos seus desabafos. Com efeito, não pode ser mais pessoal e mais subtilmente dada a dor de um homem que tem mulher e filhos a sustentar com o mísero ganho de meia dúzia de cautelas por semana e vê todos os dias ir morrendo, sem possibilidade de assistência cuidada, uma filha tuberculosa:

Quem nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem comer,
Se alguém disser que tem fome,
Comete um crime, sem querer.
Primavera de 1943
Joaquim Magalhães

António Aleixo é, sem dúvida, um poeta que extravasa em muito a restrição que o cataloga como poeta popular. É talvez um dos grandes poetas deste século pela jactância, pela sua capacidade de improviso e pela sua visão do mundo que, nesta curva do milénio, continua a ser o mesmo. Neste sentido, está ao mesmo nível de dois outros grandes poetas que com uma cultura mais erudita, também se distinguem nesse aspecto: o Fernando Pessoa e o Vitorino Nemésio. Efectivamente, graças a um intelecto poderoso, António Aleixo conseguiu trabalhar as palavras ultrapassando a sua formação académica bastante rudimentar e as múltiplas limitações da sua saúde vacilante. Uma situação a que se refere uma das suas ultimas quadras, recordada pelo irmão de Tossan, Armando dos Santos:

Quando em mim penso com calma
E me compreendo melhor
Bem merecia que a minha alma
Tivesse um corpo maior
25/2/1999
 
 
 
PS: Peço desculpa mas as quadras vão aparecer juntas ( assim deixam de ser quadras eu sei!!!... ) mas ao lerem vão perceber onde começa e onde acaba, o computador não assume a quadra.

  
ANTONIO ALEIXO
(1899 -1949)
QUADRAS POPULARES
 
Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando,
a beijar a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar. 
 
 
 
Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
Tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são… 
 
 
 
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.  
 
 
 
À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra. 
 
 
 
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo qu'rer
um mundo novo a serio.  
 
 
 
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão? 
 
 
 
 P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer a mistura
qualquer coisa de verdade.  
 
 
 
Sei que pareço um ladrão...
mas hà muitos que eu conheço,
não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.  
 
 
 
Eu ja não sei o que faça p'ra
juntar algum dinheiro; se
se vendesse a desgraça já
hoje eu era banqueiro. 
 
 
 
A vida na grande terra
corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
Prefiro a serra à cidade. 
 
 
 
O mundo só pode ser melhor
do que ate aqui
- quando consigas fazer
mais p'los outros do que por ti! 
 
 
 
Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer. 
 
 
 
Bate a fome à porta deles
e é lá mais mal recebida
do que na casa daqueles
que a sofreram toda a vida. 
 
 
 
Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria. 
 
 
 
Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes. 
 
 
 
Num arranco de loucura,
filha desta confusão,
vai todo o mundo à procura
daquilo que tem à mão. 
 
 
 
Vinho que vai para vinagre
não retrocede o caminho;
só por obra de milagre,
pode de novo ser vinho.
 
 
 
Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, as vezes, calados,
dizemos mais que falando. 
 
 
 
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia. 
 
 
 
Quando te vês mal, e dizes
que preferias a morte,
pensa que outros menos felizes
invejam a tua sorte. 
 
 
 
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade
ninguém crê no que ele diz. 
 
 
 
Tem a musica o poder
de tornar o homem feliz;
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz. 
 
 
 
Quando os homens se convençam
que a força nada faz,
serão felizes os que pensam
num mundo de amor e paz. 
 
 
 
Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não o ser. 
 
 
 
Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado. 
 
 
 
Queremos ver sempre a distancia
o que não esta descoberto,
Sem ligarmos importância
ao que esta à vista e perto. 
 
 
 
Porque será que nós temos
na frente, aos montes, aos molhos,
tantas coisas que não vemos
nem mesmo perto dos olhos? 
 
 
 
Sei que umas quadras sao conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é. 
 
 
 
 
Vemos gente bem vestida,
num aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
e muita  miséria dourada. 
 
 
 
 
Quantas sedas ai vão…
quantos colarinhos, são
pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos! 
 
 
 
 
Julgam-me mui sabedor;
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer. 
 
 
 
 
Quando não tenhas à mão
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos da magoa que sinto. 
 
 
 
Peço as altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter. 
 
 
 
Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem de comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer 
 
 
 
A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito 
 
 
 
Nada direi, mas, enfim,
Vou ter a grande alegria
De a Arte dizer por mim
Tudo quanto eu vos diria 
 
 
 
Nos versos que se improvisem,
Os poetas sabem ler,
Para alem do que eles dizem,
Tudo o que querem dizer 
 
 
 
Falemos sinceramente,
Como p'ra nòs mesmos, a sós;
là longe de toda a gente,
Do mundo, e ate de nós 
 
 
 
Após um dia tristonho
de magoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim muitos os dias 
 
 
 
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz 
 
 
 
São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós;
às vezes rimos daqueles
que valem mais do que nos 
 
 
 
Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil que existem
Uma só doutrina grande. 
 
 
 
Quando os Homens se convençam
Que com força nada se faz,
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e paz. 
 
 
 
A arte em nos se revela
Sempre de forma diferente:
Cai no papel ou na tela
Conforme o artista sente 
 
 
 
Quem prende a agua que corre
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado. 
 
 
 
Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo
O que importa e que eles sejam
O que os Homens são no fundo. 
 
 
 
Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
-Digo verdades a rir
Aos que me mentem a serio! 
 
 
 
Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão
 
 

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