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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Os 800 anos da lingua portuguesa.....


Uma pequena homenagem a Vasco Graça Moura, defensor acérrimo  da língua portuguesa


UM LAMENTO Á LINGUA PORTUGUESA 
 
A LNGUA PORTUGUESA, FAZ HOJE  800 anos
 
não és mais do que as outras, mas és nossa,
 e crescemos em ti. nem se imagina
 que alguma vez uma outra língua possa
 pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
 ser remédio brutal, mera aspirina,
 ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
 ou dar-nos vida nova e repentina.

 mas é o teu país que te destroça,
 o teu próprio país quer-te esquecer
 e a sua condição te contamina
 e no seu dia-a-dia te assassina.

 mostras por ti o que lhe vais fazer:
 vai-se por cá mingando e desistindo,
 e desde ti nos deitas a perder
 e fazes com que fuja o teu poder
 enquanto o mundo vai de nós fugindo:
 ruiu a casa que és do nosso ser
 e este anda por isso desavindo
 connosco, no sentir e no entender,
 mas sem que a desavença nos importe
 nós já falamos nem sequer fingindo
 que só ruínas vamos repetindo.
 talvez seja o processo ou o desnorte
 que mostra como é realidade
 a relação da língua com a morte,
 o nó que faz com ela e que entrecorte
 a corrente da vida na cidade.

 mais valia que fossem de outra sorte
 em cada um a força da vontade
 e tão filosofais melancolias
 nessa escusada busca da verdade,
 e que a ti nos prendesse melhor grade.

 bem que ao longo do tempo ensurdecias,
 nublando-se entre nós os teus cristais,
 e entre gentes remotas descobrias
 o que não eram notas tropicais
 mas coisas tuas que não tinhas mais,
 perdidas no enredar das nossas vias
 por desvairados, lúgubres sinais,
 mísera sorte, estranha condição,
 mas cá e lá do que eras tu te esvais,
 por ser combate de armas desiguais.

 matam-te a casa, a escola, a profissão,
 a técnica, a ciência, a propaganda,

 o discurso político, a paixão
 de estranhas novidades, a ciranda
 de violência alvar que não abranda
 entre rádios, jornais, televisão.

 e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
 por tal degradação tão mais feliz
 que o repete por luxo e não comanda,
 com o bafo de hienas dos covis,
 mais que uma vela vã nos ventos panda
 cheia do podre cheiro a que tresanda.

 foste memória, música e matriz
 de um áspero combate: apreender
 e dominar o mundo e as mais subtis
 equações em que é igual a xis
 qualquer das dimensões do conhecer,
 dizer de amor e morte, e a quem quis
 e soube utilizar-te, do viver,
 do mais simples viver quotidiano,
 de ilusões e silêncios, desengano,
 sombras e luz, risadas e prazer
 e dor e sofrimento, e de ano a ano,
 passarem aves, ceifas, estações,
 o trabalho, o sossego, o tempo insano
 do sobressalto a vir a todo o pano,
 e bonanças também e tais razões
 que no mundo costumam suceder
 e deslumbram na só variedade
 de seu modo, lugar e qualidade,
 e coisas certas, inexactidões,
 venturas, infortúnios, cativeiros,
 e paisagens e luas e monções,
 e os caminhos da terra a percorrer,
 e arados, atrelagens e veleiros,
 pedacinhos de conchas, verde jade,
 doces luminescências e luzeiros,
 que podias dizer e desdizer
 no teu corpo de tempo e liberdade.

 agora que és refugo e cicatriz
 esperança nenhuma hás-de manter:
 o teu próprio domínio foi proscrito,
 laje de lousa gasta em que algum giz
 se esborratou informe em borrões vis.
 de assim acontecer, ficou-te o mito
 de haver milhões que te uivam triunfantes

 na raiva e na oração, no amor, no grito
 de desespero, mas foi noutro atrito
 que tu partiste até as próprias jantes
 nos estradões da história: estava escrito
 que iam desconjuntar-te os teus falantes
 na terra em que nasceste, eu acredito
 que te fizeram avaria grossa.

 não rodarás nas rotas como dantes,
 quer murmures, escrevas, fales, cantes,
 mas apesar de tudo ainda és nossa,
 e crescemos em ti. nem imaginas
 que alguma vez uma outra língua possa
 pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
 ser remédio brutal, vãs aspirinas,
 ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
 ou dar-nos vidas novas repentinas.
 enredada em vilezas, ódios, troça,
 no teu próprio país te contaminas
 e é dele essa miséria que te roça.
 mas com o que te resta me iluminas.

 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

 

 

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