Visitas

domingo, 31 de outubro de 2010

Acordo Ortográfico - reaprender o português ...



Há uns dias segui com muita atenção um debate/discussão na televisão acerca do novo Acordo Ortográfico; como é sabido este acordo tem como objectivo o padronizar a escrita do português nos Países Lusófonos, Brasil, Moçambique, Angola, e alguns outros a fim de promover melhor comunicação entre todos.
De caras, tenho pena, mas não penso alinhar tão depressa neste reaprender da minha língua,irei ser como os meus pais que são da época da pharmárcia e que tiveram que passar por essa imposição. Foi concerteza phoda.E assim é, hoje pensamos que escrevemos bem, amanhã se calhar se não nos moldarmos ao sistema estaremos a assassinar a língua portuguesa,sei que é perigoso, mas logo se vê.
Mais uma vez vou citar "gente" que escreve bem e fala coisas que eu gosto, veio a própósito do assunto que estou a abordar, achei muito interessante este artigo de opinião de Nuno Pacheco, que eu assino por baixo!!! ...

" No primaríssimo opúsculo “Atual”, dado à estampa em 2008, os seus autores Malaca e Dinis garantiam que “o novo Acordo Ortográfico apenas afeta [sic] a grafia da escrita e não interfere de modo nenhum nem nas diferenças nem orais, nem nas variações gramaticais ou lexicais”. Ora na página 15 diz-se que eléctrico passa a “elétrico” e espectáculo a “espetáculo”. Mas diz também que, “nos casos em que a consoante se articula, teremos, pois, a sua manutenção”. Exemplos: “bactéria”, “compacto”, etc. Mas se ninguém diz “batéria” ou “compato”, será que alguém diz “espetador”? Não, é claro. Pronunciamos “espéktador”, tal e qual. Sucede que alguém, por excesso de zelo ortográfico, resolveu ir mais além. Veja-se este despacho da Lusa, um entre muitos: “As duas primeiras jornadas da Liga portuguesa de futebol tiveram menos cerca de 14.000 espetadores na bancada.” Não é caso único: esta agência e, com ela, os jornais e revistas que usam os seus textos sem mudar uma vírgula também descobriram “espetadores” na Red Bull Air Race, no último filme de Danny Boyle, no automobilismo de Vila Real, no Festival do Sudoeste, até numa corrida de touros em Navarra – onde há “espetadores”, sim senhor, mas não costumam estar nas bancadas, estão na arena. Espetam bandarilhas e até espadas, não se dê antes o azar de o touro lhes espetar um desembolado corno.
O mais caricato de tudo isto é que, no Brasil, de onde supostamente partira a mania de atirar fora consoantes como quem descasca amendoins, ninguém escreve “espetador”. É verdade. Lá, onde se pronuncia “ispétadôrr”, escreve-se, e bem, “espectador”. Nós por cá, à cautela, preferimos a boa e velha via do analfabetismo. Que agora até tem um pretexto legal. Querem saber se um texto é escrito de acordo com as novas normas? Tirem-lhe consoantes. Não importa porquê nem a que custo. Umas consoantes a menos e aí está o vero texto. Cheio de “ação”. Muito “atual”. Definitivamente “correto”.
Mas a relação “espetáculo”/espectador também tem que se lhe diga. Como é possível fazer derivar a palavra “espectador” (bem dita e bem escrita) da palavra “espetáculo”? Como explicar nas escolas tamanha incongruência? Onde vai a palavra derivada buscar o “c”? Apenas à pronúncia? Ou à raiz antiga entretanto adulterada e desfigurada?
Se o disparate pagasse imposto, o Acordo de 90 chegava para liquidar a dívida pública. Como não paga, os liquidados somos nós e a língua.
Espetados contra essa parede de erros e misérias a que uma trupe de inomináveis malabaristas resolveu chamar lei ".

Nuno Pacheco, Director Adjunto - Jornal Público


[transcrição integral (manual) da crónica publicada no jornal Público de 18 de Outubro 2010]
Nota 1: este texto não está disponível online, a não ser para os assinantes do jornal; foi aqui transcrito dado o seu evidente interesse público.
Nota 2: esta publicação segue assim mesmo, sem revisão; logo que possível, poderá haver uma ou outra correcção).

Sem comentários:

Enviar um comentário